Tens uma palavra a cumprir

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Tens uma palavra a cumprir

Tens uma palavra a cumprir e sabes que te chamei.

Essas palavras misteriosas estão escritas em um pequeno cartaz que um senhor estende diligentemente num semáforo da Asa Norte. Talvez você já tenha visto ele por aí.

Entre o vendedor de caju e o vendedor de coco, que tentam captar a clientela num curto espaço de um sinal vermelho, esse senhor fica parado, humildemente parado, estendendo sua faixa misteriosa para todos os carros parados no sinal. Tens uma palavra a cumprir…

A princípio me assustei. Busquei na memória aquela fisionomia. Não me era familiar. E também não sou de ficar devendo. Mas sabe como é, às vezes você estava na banca de jornal ou na padaria, e o senhor do caixa, não tendo dinheiro trocado, disse que você lhe ficava devendo um ou dois reais. E agora procurava aquele desonesto que empenhara sua palavra em um negócio comercial mas que faltara com seu compromisso.

Poderia ser eu? Improvável, até porque pago tudo no cartão e por isso não fico devendo nada a ninguém. Não. Não era comigo aquele cartaz.

Claro, pelo teor da mensagem, creio se tratar de uma referência a algum compromisso religioso. Uma mensagem que valeira para todos os motoristas parados no sinal. Que alertaria as consciências atribuladas e corridas para seu compromisso com Deus.

Sinal verde, sigamos em frente.

No outro dia, lá estava o senhor com seu cartaz estendido. As mãos esticadas, os músculos retesados e uma cara que não dava para decifrar bem o que era. Tens uma palavra a cumprir… Mais uma vez, duvidei do que ele estava querendo dizer. Será que era uma mensagem particular.

Pensei que ele pudesse ter um amigo íntimo ou até um irmão. Que emprestou dinheiro a esse irmão, talvez uma grande soma de dinheiro, quiçá todas as suas economias suadas. Que o outro deu sua palavra de honra que lhe pagaria no prazo estipulado. Mas que deu o cano. Traiu sua confiança e lhe desapontou profundamente.

Como não havia contrato do empréstimo, pois essas coisas de irmão são feitas assim mesmo, na informalidade, o senhor não poderia recorrer à justiça. Teve de arcar com o prejuízo. Mas o pior não foi nem a perda financeira, mas a perda da amizade. Porque além de não pagar e sair ileso, o irmão até se esqueceu do empréstimo, se esqueceu da dor do outro e foi viver livre e feliz como se nada tivesse acontecido.

E então, como último recurso para reaver o dinheiro e ferir a consciência do outro, o senhor bolou um plano. Uma faixa, estendida todos os dias no sinal, conclamando o outro a saldar a dívida. Nada de constrangimento público, de revelar nome, não. Apenas uma faixa misteriosa, que o outro, e apenas ele, entenderia. Todos os dias, numa obstinação de alguém que foi traído.

Mas isso é bobagem, pois o mais provável é que a faixa tenha alguma referência religiosa.

Sinal verde, sigamos em frente.

Tens uma palavra a cumprir…

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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