Milionário no Eixinho

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Milionário no Eixinho

A Mega acumulou de novo. As lotéricas voltaram a ter filas e conjecturas sobre a vida de milionário estão novamente na boca do povo.

O que fazer com tanto dinheiro?

Vejo no trabalho, na fila da padaria e nas matérias dos jornais esses desejos banais sobre o que fazer com os milhões na conta. Não me atraio por nada disso.

Nunca sonhei em ter um iate de luxo, nem mesmo uma lancha. Já andei de lancha pelo Lago Paranoá. Gostei da experiência, o vento batendo no rosto, a água respingando no corpo, a paisagem no fim de tarde. Mas não, obrigado, não me daria ao trabalho de ter uma lancha, ou um iate.

Também nunca pensei em ter jatinho ou helicóptero. Quantos acidentes com jatinhos e helicópteros acontecem por aí, minha gente? Veja quantas pessoas famosas e milionárias já morreram na queda desses jatinhos e helicópteros. Também dispenso.

Talvez nunca tenha me ocorrido nenhum desejo específico, excêntrico, algum ato de ostentação.

Com uma exceção.

Se eu fosse milionário… Eu entraria na fila daqueles postos do Eixinho que têm promoção de gasolina e esperaria uma hora, duas horas, cinco horas, a tarde inteira, o tempo que fosse necessário para abastecer o carro. Sim, com toda a paciência do mundo. Um ato de total esbanjamento do meu tempo.

Eu teria dinheiro para comprar o posto inteiro? Sim. Eu poderia pagar para que alguém abastecesse meu carro? Certamente. Mas preferiria eu mesmo enfrentar a fila para abastecer no posto do Eixinho.

Até desligaria o carro, e ficaria lá, às três da tarde de uma quinta-feira, tranquilo, mexendo no celular, ouvindo rádio, e vendo a vida passar. Óculos escuros, vidro aberto e braço para fora. Vendo os carros acelerando apressados. Vendo motoristas ingênuos parando atrás para abastecer, mas logo desistindo devido ao tempo de fila.

Veria com prazer os outros olhando aquela fila imensa de carros para abastecer e pensando “quem, afinal, fica esperando mais de uma hora numa fila para economizar dez ou quinze centavos no litro da gasolina? Só pode ser aposentado ou milionário…”. Eu, no caso, seria o milionário.

Mas como não ganharei nessa Mega acumulada, amanhã passarei pelo Eixinho, que é meu caminho habitual, e verei aquela mesma fila de veículos buscando centavos de economia no meio de uma tarde quente de um dia útil.

E pensarei: “São todos aposentados… Ou então algum deles ganhou aquela Mega que estava acumulada?”.

E, afundado nessas conjecturas, seguirei para abastecer no posto mais caro, porém mais rápido, que eu não sou milionário…

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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