Mais compaixão, menos sofrimento

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Por: Dr. Gutemberg Fialho


Entre os dias 16 e 22 de maio, quatro pessoas perderam a vida em UPAs do Distrito Federal.

Estamos solidários com suas famílias — e com todos que sentem essa dor. Mais do que explicações, o que se espera agora são mudanças reais na saúde pública. Essa sequência de tragédias escancara, mais uma vez, o descaso do GDF com as vidas das pessoas.
A política de saúde do atual governo não atende às necessidades da população. Ignora o sofrimento, despreza o perfil epidemiológico de cada região. É desumana e não e segue critérios técnicos adequados. A prioridade tem sido orientar todas as situações para as emergências e esvaziá-las rapidamente e a qualquer custo, tentando evitar repercussões negativas na imprensa. É marketing, não gestão.
Aumentaram a quantidade de UPAs para atendimentos de urgência, mas sem prover atendimento hospitalar especializado com capacidade compatível. Não houve expansão da rede de assistência especializada nem dos leitos de internação ou de UTI. Não contrataram médicos especialistas. Faltam equipes de enfermagem, manutenção predial, equipamentos e insumos básicos.
Pacientes que deveriam permanecer no máximo 24 horas nas UPAs — idosos, crianças, gestantes e trabalhadores — ficam dias internados, ocupando salas vermelhas e outras áreas dessas unidades. Médicos e equipes tentam salvar vidas em condições precárias nas áreas internas e, ao mesmo tempo, precisam atender quem está do lado de fora.
Nos hospitais, o cenário é igualmente caótico. Profissionais enfrentam a superlotação, a falta de recursos e o drama de manter pacientes intubados em leitos de emergência, quando deveriam estar em UTIs. Esses profissionais adoecem junto com os pacientes.
No caso da paciente que morreu na UPA de Planaltina no dia 22, há denúncia de que ela esperou três dias por uma ambulância para levá-la ao HRAN, onde precisava passar pela avaliação de um cirurgião vascular. Isso é uma afronta à dignidade humana, é desumano.
Segundo o Ministério Público do DF, faltam 941 leitos de retaguarda na rede pública. Muitos estão bloqueados ou foram fechados por falta de recursos humanos.
Enquanto isso, pacientes e acompanhantes se queixam do tempo de espera nas UPAs, sem saber que, lá dentro, os profissionais estão sobrecarregados cuidando de quem não foi transferido por ausência de leitos nos hospitais. E nos hospitais, leitos de emergência estão lotados com pacientes que precisam estar na UTI.
Esse colapso é resultado direto de uma escolha política: a priorização da terceirização da saúde. Desde 2019, o GDF tenta repassar a responsabilidade ao Iges, em vez de investir na estrutura pública existente. A ideia de que terceirizar é melhor é uma ilusão vendida à sociedade.
A sequência de tragédias recentes e o desespero de mães revoltadas nas portas da pediatria do Hospital de Santa Maria são prova de que essa política falhou.
Não podemos aceitar velórios como rotina. Um governo não pode impor esse sofrimento à população nem exigir que o trabalho dos profissionais de saúde dependa de heroísmo.
É hora de mudar. É urgente estruturar a rede pública, valorizar médicos e equipes concursadas e garantir a assistência que é um direito constitucional. O luto das famílias é nosso. A dor delas nos move. E não vamos parar até que nenhuma vida seja perdida por negligência do Estado.

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