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O MENINO DE PALMEIRAS

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Como um filho do interior goiano construiu, tijolo por tijolo, um dos maiores legados da história política do seu estado.

Tinha catorze anos quando entrou pela primeira vez num cartório. Palmeiras de Goiás, interior do estado, três mil habitantes, ruas sem asfalto. Chão de terra, poeira no verão, lama no inverno. O menino Marconi entrou lá para trabalhar: a família não tinha folga no orçamento e ele, como primogênito, sabia disso desde cedo.

Antes do cartório, havia vendido picolé e trabalhado no açougue. Antes do açougue, na farmácia. Onze, doze, treze, catorze anos. Um emprego novo a cada ano. E antes de tudo isso, engraxate e vendedor de rua: frutas e quitutes preparados pela mãe, oferecidos de porta em porta pelas ruas sem calçamento da cidadezinha. Era assim que a casa girava e que ele aprendia o que a vida custava e o que o trabalho valia.

Marconi Ferreira Perillo Júnior nasceu em 7 de março de 1963. O registro diz Goiânia, porque na época as mães do interior iam à capital para dar à luz em condições seguras. Mas Marconi se considera de Palmeiras. Foi ali que ele cresceu, que brincou nas ruas com o filho do fazendeiro e com o filho do carroceiro, sem distinção de classe. Foi ali que aprendeu, antes de qualquer escola formal, que a política começa na convivência em comunidade.

“Na rua em que eu morava, morava engenheiro, médico, mas morava também a pessoa que tinha uma carroça, o outro que era lenhador. As classes todas estavam ali próximas umas das outras, e havia uma solidariedade natural. A gente brincava todo mundo junto, não tinha qualquer distinção”, lembra ele.

Com quinze anos, foi para Goiânia. Mergulhou nos estudos e tentou três cursos universitários: Ciências Sociais, Engenharia, Direito. Não concluiu nenhum, porque a política chegou em sua vida antes de qualquer diploma. Só décadas depois, já senador, ele voltaria às salas de aula para concluir o curso de Direito, porque Marconi não costuma deixar histórias incompletas.

O CHAMADO

A década de 1980 no Brasil era um caldeirão. O país saía da ditadura, a democracia ainda engatinhava e os jovens que tinham convicção iam para as ruas ou para os partidos. Marconi foi para os partidos. Aos vinte e poucos anos, já presidia o PMDB Jovem de Goiás. Depois, o diretório nacional da Juventude do PMDB.

Foi ao lado de Henrique Santillo, governador e figura paterna da política goiana, que ele aprendeu o ofício de gestão pública por dentro. Como assessor especial do governador, em 1987, via de perto o que um estado exige de quem o governa: capacidade de decidir, tolerância à pressão, visão de longo prazo.

Em 1991, foi eleito deputado estadual. Em 1995, chegou à Câmara dos Deputados em Brasília, já pelo PSDB. Na relatoria que transformou a falsificação de alimentos e medicamentos em crime hediondo, havia algo mais do que uma votação parlamentar: havia um filho de família simples que sabia, na pele, o que significa não ter acesso ao básico.

O MAIS JOVEM

Em 1998, Marconi Perillo tinha 35 anos e decidiu disputar o governo de Goiás. Seu adversário era Iris Rezende, nome histórico e figura que parecia inamovível no imaginário goiano. No segundo turno, Marconi venceu. Tornou-se o governador mais jovem do Brasil naquele momento.

O que ele construiu nos anos seguintes, é parte da paisagem viva de Goiás até hoje. As 90 unidades do Vapt Vupt levaram serviços do estado para perto das pessoas. A Universidade Estadual de Goiás criou oportunidades de ensino superior onde elas não existiam. O Renda Cidadã foi precursor das políticas de transferência que depois se espalharam pelo país. A Barragem do Ribeirão João Leite e 88 estações de tratamento de esgoto traduziram saneamento como política de dignidade. Na educação, foram 71 escolas militares e 150 unidades no padrão Século 21, que redefiniram a rede pública estadual. 10 presídios construídos ajudaram a reorganizar o sistema prisional. O CRER, o Centro de Reabilitação e Readaptação, tornou-se referência nacional no atendimento a pessoas com deficiência.

O Governo Itinerante, que levava o poder executivo para dentro dos municípios mais distantes, não era apenas logística. Era uma afirmação: ele era um governador que olhava também para o interior.

“Uma das coisas que me faz feliz é o fato de que em todas as pesquisas, a maioria dos goianos reconhece que os governos de Marconi foram os mais inovadores e modernizantes da história do Estado”, afirma ele.

Reeleito em 2002, aprofundou obras e programas. Em 2006, renunciou ao cargo para disputar o Senado e foi eleito com mais de dois milhões de votos, a maior votação proporcional para o Senado no país naquele ano.

 

O RETORNO E O APROFUNDAMENTO

Em 2010, voltou ao Palácio das Esmeraldas para o terceiro mandato e em 2014 para o quarto. Ao todo, dezesseis anos à frente do executivo goiano, uma trajetória que poucos estadistas brasileiros construíram. Nesse período, Goiás chegou ao primeiro lugar no IDEB do Ensino Médio. Foram construídos hospitais regionais, Colégios Militares, o HUGOL, o Aeroporto de Cargas de Anápolis. Foram duplicadas rodovias que antes eram promessa. Foram criados programas, como a Bolsa Universitária e o Banco do Povo, que mudaram trajetórias de pessoas de todas as regiões do estado.

Marconi não governou Goiás por dezesseis anos fazendo suas próprias vontades, governou com um planejamento duradouro, que seguiu dando frutos mesmo após o fim de seus mandatos.

A QUEDA E A LIÇÃO

2018 foi o ano mais duro. Marconi deixou o governo para disputar o Senado e perdeu. Ficou em quinto lugar. Para quem havia vencido todas as eleições que disputara, a derrota chegou como um choque que a política, eventualmente, cobra de todos.

Mas o que aconteceu depois da derrota é o que o define tanto quanto as vitórias. Marconi foi para o setor privado. Trabalhou. Aprendeu, por dentro, como funcionava a engrenagem da iniciativa privada: a tomada de decisão sem o amparo da estrutura estatal, a gestão de recursos sem a garantia do orçamento público. Colheu algo que o poder raramente oferece: distância crítica de si mesmo.

“A gente aprende muita coisa quando a gente perde. Você aprende a conhecer um pouco mais a alma humana. Nem todo mundo é generoso, nem todo mundo é leal, nem todo mundo é solidário quando você precisa”, disse ele, sem amargura.

Houve investigações e narrativas construídas por adversários. Mas, ao final, vieram as absolvições. E, mais do que isso, uma convicção que ele carrega como escudo:

“Não vou deixar que malandros construam minha biografia com a sua narrativa.”

Aprendeu também, nesse período, algo que poucos políticos conseguem: rezar pelos adversários sem fingimento.

“Todos os dias, quando eu rezo, eu rezo pelos meus adversários. Para que eles abrandem o coração deles e sejam menos cruéis”, contou.

É o que ele chama de virar a página. Não esquecer, mas seguir sem mágoa.

O HOMEM QUE VOLTOU

Hoje, Marconi Perillo tem 63 anos, preside o Instituto Teotônio Vilela após dois anos à frente do PSDB, período em que o partido voltou a crescer. Em 2026, disputa de novo o governo de Goiás. Mas o homem que disputa agora não é o mesmo de 1998, nem o de 2010. É alguém que passou pelo topo, pela derrota, pelo isolamento, pelo setor privado, pelas absolvições e voltou com algo que só a experiência madura carrega: a capacidade de ouvir antes de falar.

O estado que ele governou cresceu. Goiás é hoje a nona maior economia do Brasil. Parte do que foi plantado naquelas gestões, o saneamento, as universidades, as rodovias, os programas sociais, germinou e deu fruto. E parte do que poderia ter avançado ainda espera alguém que conhece o terreno para seguir em frente.

Marconi não governa Goiás desde 2018. Mas Goiás ainda está, em muitos aspectos, sobre o alicerce que ele ajudou a construir. É desse alicerce que ele fala quando diz que o passado é a credencial para o futuro.

O menino de Palmeiras que engraxava sapatos e vendia frutas nas ruas de chão de terra aprendeu, antes de qualquer coisa, que nada se constrói sem trabalho e que o Estado de Goiás pode mais.

 

A Arte da Diplomacia Política: Como Jefferson Rodrigues Conquistou Espaço e Respeito entre Diferentes Forças em Goiás

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Nesta entrevista exclusiva, o deputado Jefferson Rodrigues abre os bastidores de sua trajetória pessoal e pública. Ele relembra a infância na Vila Brasília, o crescimento de Aparecida de Goiânia e a forte formação humanista transmitida por seus pais. O parlamentar detalha a sua transição para a liderança evangélica, explica como consolidou uma gestão técnica e laica na Secretaria de Assuntos Religiosos, analisa o mosaico cultural do interior goiano e revela a sua postura de lealdade e respeito junto a grandes líderes políticos do Estado.

Origens, o Crescimento de Aparecida e as Lições de Cidadania

Deputado Jefferson Rodrigues, nos fale sobre a sua trajetória pessoal e política, e o que o senhor projeta para esta renovação de mandato nas eleições de 2026.

Deputado Jefferson Rodrigues: É um prazer imenso e uma grande satisfação estar aqui com você, Edson. Antes de falarmos sobre o papel do homem público, considero fundamental que as pessoas entendam as motivações do político, as suas bandeiras e as experiências que moldaram os seus valores. Minhas raízes estão ligadas a pais baianos que foram pioneiros em Aparecida de Goiânia, mais precisamente no bairro Vila Brasília. Quando a minha família se estabeleceu ali, o município contava com pouco mais de 15.600 habitantes; hoje, estamos a falar de uma potência com mais de 650 mil moradores. Meu pai foi um dos primeiros a acreditar naquela região.

O senhor frequentemente menciona que a sua infância e adolescência foram períodos de muita superação devido a problemas crónicos de saúde. Como foi conviver com essas limitações?

Jefferson Rodrigues: Fui acometido muito cedo por uma bronquite severa que acabou evoluindo para um quadro de asma. Praticamente desde os meus dois anos de idade até completar os 18 anos, a minha rotina consistia em sucessivas internações hospitalares decorrentes de crises de broncopneumonia e complicações de diabetes. O meu sistema respiratório era tão debilitado que eu guardava um profundo sentimento de vergonha na adolescência: eu precisava caminhar pelas ruas protegendo-me com uma sombrinha. Se o sol forte batesse diretamente em mim, as minhas defesas baixavam e eu ficava exausto, sem forças para respirar. Para ter uma ideia, anos mais tarde, exames apontavam manchas nos meus pulmões causadas pelo esforço hercúleo que eu fazia na época para buscar o ar. 

E como era o cotidiano dessas idas frequentes às unidades de saúde?

Jefferson Rodrigues: Era uma rotina quase diária, principalmente nas madrugadas. Ali, no ambiente de emergência, convivi de perto com o ápice do sofrimento humano. Via pacientes com dores agudas, casos graves e acidentados que chegavam em situações extremas. Mas foi exatamente esse cenário que despertou em mim uma sensibilidade profunda pelo próximo, algo que foi amplificado pela postura dos meus pais.

Como os seus pais atuaram para moldar esse seu lado voltado para o social?

Jefferson Rodrigues: A influência deles foi total. O meu pai era um homem extraordinariamente humanista, e a minha mãe compartilhava dessa visão. Ele era um membro muito ativo da Igreja Católica, líder de movimentos de casais. Ele fazia questão de me levar, juntamente com a minha irmã, para participar de visitas de caridade. Ele dizia: “Eu quero que vocês conheçam a realidade para entenderem a vida”. Visitávamos os internos da A Vila São Cottolengo (Trindade – GO), colónias de hanseníase, lares de idosos e orfanatos. A frase dele ecoava: “Dá valor ao que tu tens”.

Na vida profissional, o seu pai atuava como contador. A rigidez moral dele nos negócios também o marcou?

Jefferson Rodrigues: Marcou profundamente. O meu pai operava numa linha de honestidade que por vezes trazia dificuldades financeiras para a nossa casa. Lembro-me de clientes que o procuravam dispostos a pagar para abrir uma empresa. Mesmo precisando do dinheiro dos honorários, ele analisava o cenário e dizia: “Olha, tu não deves abrir este negócio agora, tens estes problemas, não vai dar certo”. Com os fiscais de tributos, a postura dele era idêntica. Ele dizia: “Eu não minto para duas pessoas: o meu cliente e o fiscal. Se o fiscal perguntar, eu direi exatamente quem paga os impostos de forma correta e quem não paga”. Os fiscais confiavam tanto na integridade dele que nem checavam os livros dos clientes que ele avalizava. Cresci sob este legado de total sinceridade.

A Juventude Rebelde, o Alcoolismo e o Choque da Conversão

Edson Crisóstomo: Diante de uma infância tão restritiva por conta das doenças, como se deu a transição para a sua juventude e a sua posterior mudança de estilo de vida?

Jefferson Rodrigues: A reviravolta aconteceu por volta dos meus 17 anos. Um médico examinou-me e disse que, pelo histórico de medicamentos pesados que tomei a vida inteira, eu teria poucos anos de vida pela frente. Aquilo gerou um impacto profundo. Pensei: “Bem, se me resta pouco tempo, eu vou curtir a vida”. Foi aí que me juntei a uma tribo de roqueiros e adotei a filosofia da “vida louca”.

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|               BOX: SÍNTESE DO PERFIL PARLAMENTAR                 |

| • Origem: Vila Brasília, Aparecida de Goiânia (Pioneiros).    |

| • Formação: Forte base humanista e social desde a infância. |

| • Experiência Executiva: Secretário de Assuntos Religiosos (2011). |

| • Evolução Eleitoral: Crescimento contínuo de 24 mil para 45 mil  |

|   votos nas urnas estaduais goianas.                     |

| • Desempenho Partidário: Um dos fundadores históricos da legenda, |

|   tendo rodado mais de 110 mil km para consolidar bases. |

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Como era o Jefferson dessa fase roqueira e como o alcoolismo começou a tomar conta da sua rotina?

Jefferson Rodrigues: Eu mergulhei de cabeça no estereótipo do roqueiro rebelde e desleixado. Meus amigos consumiam substâncias químicas variadas, mas, devido ao meu histórico pulmonar, eles tinham zelo por mim e diziam: “Jefferson, tu tens problemas graves de asma. Não uses nada disso, limita-te apenas a beber”. Eu acatei. Comecei a beber nos finais de semana e, em pouco tempo, o hábito tornou-se diário. Eu andava sujo, usava uma jaqueta de cabedal que ficou sem lavar por anos e colocava naftalina nos bolsos para disfarçar o cheiro. Na porta do meu quarto, fixei um cartaz de aviso: “Quarto condenado, perigo, não entre”. Meu pai olhava para aquilo com uma tristeza dilacerante.

De que maneira a fé entrou na sua casa e transformou a sua realidade e a da sua família?

Jefferson Rodrigues: A porta de entrada foi a minha irmã. Ela passou por uma desilusão amorosa devastadora na adolescência, o que a desestruturou emocionalmente e gerou muito sofrimento em casa. Um dia, ela entrou na Igreja Universal e experimentou uma transformação radical. Meu pai, sendo um católico fervoroso e ministro da Eucaristia, não aceitou bem no início. Gerou-se um clima tenso dentro do lar. Diante disso, o pastor orientou a minha irmã a orar, afirmando que Deus haveria de converter alguém daquela casa para ser o seu ponto de apoio. Ela veio até mi e profetizou que eu seria essa pessoa. No início eu zombei, mas acabei por aceitar o convite para ir à igreja. Ali, tive o meu encontro real com Deus. Fui liberto do alcoolismo, curado das minhas debilidades físicas e, anos mais tarde, tornei-me pastor e abracei essa vocação.